O artigo “A Educação em Cabo Verde como Projeto de Justiça Social e Cognitiva: Políticas, Inclusão e Contradições Estruturais” analisa criticamente o sistema educativo cabo-verdiano a partir das tensões existentes entre os discursos oficiais de inclusão, equidade e democratização do ensino e a realidade concreta vivida nas escolas do país.
Partindo de referenciais teóricos de Paulo Freire, Pierre Bourdieu, Amartya Sen e Martha Nussbaum, o estudo compreende a educação não apenas como instrumento de escolarização, mas como espaço político, social e cognitivo fundamental para a emancipação humana, a justiça social e o desenvolvimento das capacidades individuais e coletivas.
O trabalho examina políticas educativas, legislação nacional, indicadores estatísticos, estratégias de educação inclusiva e influências internacionais sobre a governação educacional em Cabo Verde. A investigação mobiliza revisão bibliográfica, análise documental e dados provenientes do Instituto Nacional de Estatística, Ministério da Educação, UNESCO e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 4), procurando compreender até que ponto o sistema educativo cabo-verdiano promove inclusão efetiva ou reproduz desigualdades estruturais.
O artigo demonstra que, apesar dos avanços alcançados na universalização do acesso à educação e na expansão da escolarização, persistem desafios significativos relacionados ao abandono escolar, desigualdades regionais, limitações na formação docente, fragilidades das infraestruturas escolares e dificuldades na inclusão efetiva de alunos com necessidades educativas especiais. Ao mesmo tempo, problematiza-se a crescente centralidade de indicadores quantitativos, rankings internacionais e métricas de desempenho, argumentando que tais mecanismos tendem a privilegiar resultados estatísticos em detrimento da qualidade real das aprendizagens e da justiça cognitiva.
A reflexão crítica desenvolvida ao longo do texto evidencia ainda a distância existente entre legislação, políticas públicas e práticas pedagógicas concretas, mostrando que muitas reformas educativas permanecem excessivamente dependentes de modelos internacionais padronizados, nem sempre adequados às especificidades históricas, culturais, linguísticas e sociais de Cabo Verde.
Mais do que um diagnóstico do sistema educativo cabo-verdiano, o artigo propõe uma reflexão ampla sobre os limites da escolarização contemporânea, defendendo a necessidade de políticas educativas contextualizadas, fortalecimento da formação docente, valorização das experiências reais de aprendizagem e construção de uma educação verdadeiramente inclusiva, democrática e socialmente justa.

