O presente artigo analisa a construção histórica das ciências sociais desde a sua emergência na modernidade, destacando a relação intrínseca entre produção científica, organização social e estruturas de poder. Partindo dos contextos de transformação associados à Revolução Francesa e à Revolução Industrial, discute-se como as ciências sociais se constituíram simultaneamente como instrumentos de compreensão e de intervenção sobre a realidade social. O texto revisita criticamente as contribuições dos autores clássicos, Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber, evidenciando tensões entre objetividade, interpretação e transformação social. A partir de autores contemporâneos como Immanuel Wallerstein, Anthony Giddens e Boaventura de Sousa Santos, o artigo problematiza as limitações epistemológicas do campo e as suas encruzilhadas atuais, marcadas por desafios como a globalização, a crise da verdade e a necessidade de inclusão de epistemologias plurais. Defende-se, por fim, que as ciências sociais não podem ser reduzidas a uma função meramente descritiva, devendo assumir um compromisso crítico e transformador, orientado para a produção de conhecimento socialmente relevante e emancipador.
1. Introdução
A emergência das ciências sociais encontra-se profundamente enraizada nas transformações estruturais da modernidade, período marcado por intensas mudanças políticas, económicas e culturais que redefiniram as formas de organização da vida coletiva. A consolidação dos Estados-nação, a expansão do capitalismo industrial e a crescente racionalização das instituições sociais criaram as condições históricas e epistemológicas para o surgimento de um campo científico dedicado à análise sistemática da sociedade. Neste contexto, o conhecimento deixou de ser predominantemente filosófico ou teológico, passando a reivindicar estatuto científico, assente em critérios de objetividade, generalização e validação empírica.
Todavia, desde a sua génese, as ciências sociais não se desenvolveram de forma neutra nem isolada. Pelo contrário, estiveram profundamente imbricadas nas dinâmicas de poder, funcionando simultaneamente como instrumentos de compreensão da ordem social e como mecanismos de sua legitimação ou contestação. Como argumenta Immanuel Wallerstein (1996), a institucionalização das disciplinas sociais esteve associada a projetos históricos específicos, frequentemente ancorados em perspetivas eurocêntricas que estabeleceram os critérios dominantes de produção e validação do conhecimento.
É neste enquadramento que emerge o problema central deste artigo: as ciências sociais nasceram para explicar o mundo ou para transformá-lo? Esta questão remete para uma tensão constitutiva do próprio campo, visível nas diferentes tradições teóricas que o estruturam, desde a perspetiva crítica e transformadora de Karl Marx (1867/2013), à defesa da objetividade científica em Émile Durkheim (1895/2007), passando pela abordagem compreensiva e pela reflexão sobre a neutralidade axiológica em Max Weber (1904/2004).
Neste artigo, defende-se a tese de que as ciências sociais não podem ser reduzidas a instrumentos meramente descritivos da realidade, nem a ferramentas técnicas de análise desprovidas de implicações normativas. Pelo contrário, constituem um campo intrinsecamente crítico, atravessado por disputas epistemológicas e políticas, cujo potencial reside precisamente na capacidade de articular rigor analítico com compromisso social. Assim, mais do que optar entre explicar ou transformar, importa reconhecer que o desafio contemporâneo das ciências sociais consiste em integrar ambas as dimensões, produzindo conhecimentos que sejam simultaneamente analíticos, reflexivos e socialmente relevantes.
2. A emergência das ciências sociais (século XVIII – XIX)
A constituição das ciências sociais enquanto campo autónomo do saber encontra-se profundamente associada às transformações estruturais ocorridas entre os séculos XVIII e XIX, num contexto de rutura com as formas tradicionais de organização social e de pensamento. Dois processos históricos assumem particular centralidade neste percurso: a Revolução Francesa e a Revolução Industrial.
A primeira inaugurou uma nova ordem política assente nos ideais de liberdade, igualdade e cidadania, desafiando os fundamentos do absolutismo e afirmando a possibilidade de uma organização racional da sociedade. A segunda transformou profundamente as estruturas económicas e sociais, impulsionando a urbanização, a divisão do trabalho e a emergência de novas classes sociais, nomeadamente o proletariado industrial. Estas transformações geraram tensões, conflitos e desequilíbrios que exigiram novas formas de compreensão sistemática da realidade social.
Neste contexto, verifica-se uma rutura significativa com as explicações teológicas e filosóficas tradicionais que, até então, procuravam interpretar o mundo social com base em princípios metafísicos ou normativos. A modernidade introduz uma confiança renovada na razão e na observação empírica, impulsionando o desenvolvimento de abordagens orientadas para a análise científica da sociedade. Como sublinha Anthony Giddens (1990), a sociologia emerge precisamente da necessidade de compreender as consequências dessas transformações profundas e aceleradas.
É neste período que se consolida a ideia de “sociedade” como objeto legítimo de investigação científica. Deixa de ser concebida como um simples agregado de indivíduos ou como uma ordem natural imutável, passando a ser entendida como uma realidade estruturada, dotada de regularidades e passível de análise sistemática. Esta mudança epistemológica foi decisiva para o surgimento das ciências sociais, permitindo a construção de conceitos, categorias e metodologias próprias.
Um dos pilares desta nova abordagem foi o positivismo, corrente que defendia a aplicação dos métodos das ciências naturais ao estudo dos fenómenos sociais. Inspirado por uma conceção de ciência assente na objetividade, na observação e na busca de leis gerais, o positivismo contribuiu significativamente para a afirmação das ciências sociais como disciplinas científicas. No entanto, como viria a ser criticado por Boaventura de Sousa Santos (2014), esta orientação implicou frequentemente a redução da complexidade social a modelos excessivamente racionalistas e universalizantes, desconsiderando contextos históricos e culturais específicos.
Assim, a emergência das ciências sociais deve ser compreendida como um processo simultaneamente científico e histórico, marcado por avanços epistemológicos, mas também por limitações e tensões que continuam a influenciar os debates contemporâneos. Mais do que um simples produto da modernidade, as ciências sociais constituem uma resposta intelectual às crises e transformações do seu tempo, refletindo, desde a sua origem, a ambivalência entre explicar a sociedade e intervir na sua transformação.
3. Os clássicos fundadores: três paradigmas centrais
A arquitetura teórica das ciências sociais modernas assenta, de forma incontornável, nas contribuições de Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber. Mais do que autores fundadores, estes pensadores configuram três matrizes epistemológicas distintas, crítica, positivista e compreensiva, que continuam a estruturar os debates contemporâneos.
A relevância das suas obras não se limita à explicação das dinâmicas sociais do século XIX; pelo contrário, reside na capacidade de fornecer categorias analíticas que permanecem operatórias na interpretação de fenómenos atuais, como a desigualdade global, a crise das instituições e os processos de racionalização tecnológica. Neste sentido, o legado dos clássicos não deve ser entendido como um corpo teórico fechado, mas como um conjunto de instrumentos conceptuais que permitem problematizar, de forma crítica, as transformações das sociedades contemporâneas.
3.1 Karl Marx – crítica radical e transformação social
A obra de Karl Marx constitui uma rutura decisiva com qualquer conceção neutra ou contemplativa da ciência. O seu ponto de partida, o materialismo histórico, redefine profundamente a compreensão da realidade social: esta deixa de ser entendida como um conjunto de ideias ou valores abstratos, passando a ser concebida como um sistema estruturado a partir das condições materiais de produção e reprodução da vida (Marx, 1867/2013).
Nesta perspetiva, as instituições políticas, jurídicas e culturais não são autónomas, mas integram uma superestrutura que reflete e legitima as relações de produção dominantes. A história, longe de ser linear ou consensual, é marcada por contradições estruturais que se expressam na luta de classes. Este conceito não deve ser reduzido a um mero conflito económico; trata-se, antes, de um princípio explicativo transversal, que atravessa todas as dimensões da vida social.
O capitalismo, na análise marxista, configura-se simultaneamente como um sistema de extraordinária capacidade produtiva e como um regime estrutural de exploração. A extração da mais-valia, isto é, a apropriação do valor produzido pelo trabalhador, constitui o núcleo dessa exploração. Contudo, um dos aspetos mais sofisticados da crítica marxista reside na ideia de que o capitalismo se sustenta não apenas pela coerção económica, mas também pela produção de ideologias que naturalizam e legitimam as desigualdades.
Do ponto de vista epistemológico, Marx rejeita explicitamente a separação entre ciência e política, defendendo que o conhecimento é sempre historicamente situado e, por isso, deve assumir um compromisso com a transformação social. Esta perspetiva mantém-se profundamente atual: num contexto marcado por desigualdades globais, precarização do trabalho e concentração de riqueza, a abordagem marxista continua a oferecer instrumentos analíticos robustos para compreender as dinâmicas do capitalismo contemporâneo.
Não obstante, importa reconhecer limites e tensões. A ênfase estrutural pode, em certos momentos, subestimar a agência dos indivíduos e a complexidade cultural das sociedades. Ainda assim, enquanto paradigma crítico, Marx permanece incontornável, sobretudo quando se pretende problematizar as bases do poder e da dominação.
3.2 Émile Durkheim – ordem social, coesão e cientificidade
Se Marx representa a rutura crítica, Émile Durkheim encarna o projeto de fundação científica das ciências sociais. A sua principal preocupação não reside na transformação revolucionária, mas na compreensão das condições que tornam possível a coesão social em sociedades crescentemente complexas (Durkheim, 1895/2007).
Durkheim introduz um conceito central, o de fato social, que redefine o objeto da sociologia. Ao afirmar que os fatos sociais devem ser tratados “como coisas”, propõe uma abordagem metodológica baseada na objetividade, na observação empírica e na identificação de regularidades. Esta posição foi decisiva para a legitimação das ciências sociais enquanto campo científico autónomo.
Todavia, reduzir Durkheim a um positivista estrito seria simplificador. A sua análise da modernidade revela uma preocupação profunda com os efeitos da desintegração social, nomeadamente através do conceito de anomia — uma situação em que as normas deixam de orientar eficazmente o comportamento dos indivíduos. Neste sentido, a sua obra não é apenas descritiva, mas também normativa, procurando identificar as condições necessárias à manutenção da coesão social.
A distinção entre solidariedade mecânica e solidariedade orgânica constitui um dos seus contributos mais influentes. Enquanto a primeira se baseia na semelhança e caracteriza sociedades tradicionais, a segunda assenta na diferenciação funcional e na interdependência típica das sociedades modernas. Esta transição, embora estruturalmente necessária, gera fragilidades que exigem novas formas de regulação moral e institucional.
Do ponto de vista crítico, a abordagem durkheimiana levanta questões relevantes. A sua ênfase na ordem e na estabilidade pode conduzir à naturalização das estruturas sociais, desvalorizando conflitos e desigualdades. Ainda assim, ignorar Durkheim comprometeria a compreensão dos mecanismos que tornam possível a própria existência da sociedade. Num contexto contemporâneo marcado por crises institucionais e fragmentação social, o seu pensamento mantém elevada pertinência.
3.3 Max Weber – interpretação, racionalidade e ambivalência da modernidade
A contribuição de Max Weber introduz uma inflexão decisiva no campo das ciências sociais ao propor uma abordagem compreensiva centrada no sentido das ações humanas. Para Weber, a sociologia não deve limitar-se à identificação de estruturas ou leis gerais, mas procurar compreender os significados que orientam o comportamento dos indivíduos (Weber, 1904/2004).
O conceito de ação social constitui o núcleo da sua teoria. Ao distinguir entre diferentes tipos de ação, racional com relação a fins, racional com relação a valores, afetiva e tradicional, Weber desenvolve uma tipologia sofisticada que permite apreender a complexidade da vida social.
Um dos eixos centrais do seu pensamento é o processo de racionalização, entendido como a crescente organização da sociedade segundo princípios de cálculo, eficiência e previsibilidade. Este processo está na base da expansão da burocracia, do capitalismo moderno e da ciência. Contudo, Weber não o interpreta de forma linear ou celebratória; pelo contrário, identifica nele uma ambivalência estrutural.
A metáfora da “gaiola de ferro” expressa essa tensão: a racionalização, ao mesmo tempo que promove eficiência, pode aprisionar os indivíduos em sistemas rígidos e desumanizados. O desencantamento do mundo traduz, por sua vez, a perda de sentido e de referências transcendentais numa sociedade dominada pela racionalidade instrumental.
A defesa da neutralidade axiológica constitui outro elemento central da sua obra. Weber sustenta que o cientista deve distinguir entre juízos de facto e juízos de valor, preservando a integridade da análise científica. No entanto, reconhece que essa neutralidade é sempre relativa, uma vez que os próprios problemas de investigação são socialmente condicionados.
A força do pensamento weberiano reside precisamente na sua capacidade de lidar com a ambiguidade. Ao contrário de Marx, não propõe uma transformação estrutural; ao contrário de Durkheim, não procura fundamentos normativos para a coesão social. Em vez disso, oferece uma análise rigorosa das tensões da modernidade, marcada por conflitos entre racionalidade, liberdade e sentido.
Assim, a leitura articulada destes três autores revela que as ciências sociais nascem sob o signo de uma tensão constitutiva: entre crítica e ordem, entre estrutura e ação, entre objetividade e compromisso. Mais do que paradigmas isolados, Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber representam formas distintas, e complementares, de responder à mesma questão fundamental: como compreender e lidar com as transformações da modernidade.
Do ponto de vista deste artigo, nenhuma destas abordagens é suficiente por si só. A complexidade das sociedades contemporâneas exige uma síntese crítica capaz de integrar:
- a dimensão estrutural e crítica de Marx;
- a preocupação com a coesão social de Durkheim;
- a análise interpretativa e reflexiva de Weber.
Assim, o verdadeiro legado dos clássicos não reside na formulação de respostas definitivas, mas na disponibilização de ferramentas analíticas que permitem pensar criticamente o presente. É precisamente nesse diálogo, tenso, incompleto e permanentemente aberto, que se afirma a vitalidade das ciências sociais.
4. A institucionalização das ciências sociais (século XIX – 1945)
O processo de institucionalização das ciências sociais, entre o século XIX e meados do século XX, representa um momento decisivo na consolidação deste campo como domínio científico autónomo. Este período é marcado pela sua integração nas universidades, pela definição progressiva de objetos específicos de estudo e pela construção de metodologias próprias, num esforço deliberado de afirmação científica que acompanhou a expansão dos Estados modernos e das burocracias administrativas.
A criação de departamentos universitários, revistas científicas e associações académicas contribuiu de forma decisiva para a legitimação das ciências sociais enquanto disciplinas formais. Neste contexto, assistiu-se a um processo de disciplinarização do conhecimento, caracterizado pela delimitação de fronteiras entre áreas como a economia, a sociologia e a ciência política. Cada uma destas disciplinas passou a reivindicar um objeto próprio, o mercado, a sociedade, o Estado, e a desenvolver instrumentos analíticos específicos, reforçando a sua autonomia científica.
Contudo, esta especialização, embora tenha promovido maior rigor metodológico e aprofundamento teórico, produziu também efeitos problemáticos. A separação rígida entre disciplinas contribuiu para uma visão fragmentada da realidade social, dificultando a compreensão de fenómenos complexos que atravessam múltiplas dimensões. Como consequência, o conhecimento produzido tornou-se frequentemente compartimentado, perdendo a capacidade de apreender a totalidade e a interdependência das dinâmicas sociais.
Outro elemento central deste processo foi o forte eurocentrismo que marcou a formação das ciências sociais. Desenvolvidas maioritariamente em contextos europeus e norte-americanos, estas disciplinas universalizaram categorias e teorias baseadas em experiências históricas específicas, frequentemente ignorando ou marginalizando outras realidades. Este fenómeno está intimamente ligado ao que viria a ser conceptualizado como colonialidade do saber, isto é, a imposição de formas de conhecimento dominantes que deslegitimam saberes locais e alternativas epistemológicas (Santos, 2014).
É neste ponto que a crítica de Immanuel Wallerstein se torna particularmente relevante. Na sua análise, Wallerstein (1996) argumenta que a estrutura disciplinar das ciências sociais é um produto histórico associado ao desenvolvimento do sistema-mundo moderno, e não uma divisão natural do conhecimento. A fragmentação disciplinar não apenas limita a compreensão dos fenómenos sociais, como também reproduz hierarquias epistemológicas que favorecem determinadas perspetivas em detrimento de outras.
Para Wallerstein (1996), as ciências sociais enfrentam limitações epistemológicas profundas decorrentes dessa organização disciplinar rígida. A separação entre economia, política e cultura, por exemplo, ignora a interdependência estrutural dessas dimensões. Do mesmo modo, a distinção entre ciências sociais e ciências naturais, embora funcional em certos contextos, pode obscurecer interligações fundamentais, sobretudo num mundo marcado por desafios globais como as mudanças climáticas e as transformações tecnológicas.
A proposta de “abrir as ciências sociais” (Wallerstein, 1996) aponta, assim, para a necessidade de superar fronteiras disciplinares rígidas e promover abordagens mais integradas, históricas e globais. Tal implica não apenas uma reorganização institucional, mas também uma revisão crítica dos pressupostos epistemológicos que sustentam o campo.
Deste modo, a institucionalização das ciências sociais deve ser compreendida de forma ambivalente. Por um lado, foi essencial para a sua consolidação e reconhecimento científico; por outro, introduziu limitações estruturais que continuam a marcar os debates contemporâneos. A tensão entre especialização e integração, entre universalismo e pluralidade, permanece no centro das encruzilhadas atuais das ciências sociais, exigindo uma reflexão crítica contínua sobre os seus fundamentos, limites e finalidades.
5. Críticas contemporâneas e reconfiguração do campo
As transformações aceleradas das últimas décadas, nomeadamente a intensificação da globalização, a revolução tecnológica, a crise ambiental e a reconfiguração das desigualdades, vieram evidenciar os limites das matrizes clássicas e das formas tradicionais de organização das ciências sociais. Neste contexto, emergem críticas que não apenas questionam conteúdos teóricos específicos, mas também os próprios fundamentos epistemológicos, metodológicos e institucionais do campo. A reconfiguração das ciências sociais configura, assim, um duplo movimento: por um lado, a revisão crítica do legado moderno; por outro, a abertura a novas formas de produção e validação do conhecimento.
5.1 A crítica epistemológica: para além do pensamento abissal
A contribuição de Boaventura de Sousa Santos assume centralidade na problematização das bases epistemológicas das ciências sociais. A sua crítica dirige-se ao que designa como “pensamento abissal”, uma lógica de produção de conhecimento que estabelece linhas de separação radicais entre o que é considerado válido, científico, moderno e ocidental, e aquilo que é invisibilizado ou deslegitimado, saberes tradicionais, locais ou não ocidentais (Santos, 2014).
Segundo Santos (2014), as ciências sociais modernas participaram historicamente nesse processo de exclusão, ao universalizarem categorias produzidas em contextos específicos, sobretudo europeus, e ao ignorarem a diversidade epistemológica do mundo. Este fenómeno encontra-se profundamente ligado à herança colonial, que não apenas organizou territórios e economias, mas também hierarquizou formas de conhecimento.
É neste quadro que emerge a proposta das Epistemologias do Sul, entendidas não como uma categoria geográfica, mas como um projeto teórico e político que valoriza conhecimentos produzidos em contextos de resistência e marginalização. Trata-se de reconhecer a existência de múltiplas formas de conhecer e interpretar a realidade, promovendo um diálogo epistemológico que ultrapasse a lógica de exclusão.
Do ponto de vista crítico, esta abordagem coloca desafios significativos às ciências sociais tradicionais. Obriga a questionar não apenas os conteúdos do conhecimento, mas também os critérios que definem o que é considerado conhecimento legítimo. Simultaneamente, levanta questões operacionais relevantes: como integrar saberes plurais sem cair em relativismo epistemológico? Como assegurar rigor científico num contexto de diversidade cognitiva? Estas tensões não são obstáculos externos, mas elementos constitutivos do próprio processo de reconfiguração do campo.
5.2 A modernidade reflexiva: incerteza, risco e transformação
A obra de Anthony Giddens oferece uma interpretação sofisticada das transformações da modernidade tardia, introduzindo o conceito de modernidade reflexiva (Giddens, 1991). Ao contrário das fases anteriores, caracterizadas por maior estabilidade institucional, a modernidade contemporânea distingue-se por um elevado grau de incerteza, resultante da intensificação das mudanças sociais e da globalização.
Para Giddens (1991), a globalização não se limita a um fenómeno económico, mas traduz uma reconfiguração profunda das relações sociais à escala global. As interações tornam-se mais complexas e interdependentes, e os fenómenos locais passam a ser moldados por dinâmicas globais. Esta condição exige novas ferramentas analíticas, capazes de apreender a fluidez e a interconectividade das realidades sociais.
Um dos conceitos centrais desta abordagem é o de reflexividade, entendido como a capacidade das sociedades de se auto-observarem e de se reorganizarem com base no conhecimento que produzem. A ciência deixa, assim, de ser um instrumento externo de análise, passando a integrar os próprios processos sociais que estuda. Consequentemente, o conhecimento científico torna-se dinâmico, contingente e permanentemente sujeito a revisão.
No entanto, esta reflexividade gera também novos riscos. A produção contínua de conhecimento pode aumentar a incerteza, ao revelar a complexidade e a imprevisibilidade dos sistemas sociais. Deste modo, a modernidade contemporânea apresenta-se como simultaneamente mais informada e mais instável, colocando desafios significativos às ciências sociais, que devem lidar com fenómenos em constante transformação.
5.3 Crise das fronteiras disciplinares e novos horizontes do conhecimento
Um dos efeitos mais evidentes das transformações contemporâneas é a crescente crise das fronteiras disciplinares. A divisão tradicional entre economia, sociologia, ciência política e outras áreas revela-se cada vez menos adequada para compreender fenómenos complexos, como as alterações climáticas, a inteligência artificial, as migrações ou as pandemias.
Neste contexto, ganha relevância a interdisciplinaridade, entendida não apenas como colaboração entre disciplinas, mas como uma reconfiguração profunda das formas de produção do conhecimento. As ciências sociais passam a estabelecer diálogos com áreas como as ciências naturais, a tecnologia, a saúde e os estudos culturais, numa tentativa de construir abordagens mais integradas e abrangentes.
Esta transformação implica igualmente uma redefinição do papel do cientista social. De especialista disciplinar, passa a assumir-se como mediador de saberes, capaz de articular diferentes perspetivas, dialogar com múltiplos públicos e intervir em contextos concretos. A produção de conhecimento torna-se, assim, mais colaborativa, situada e orientada para a resolução de problemas.
Contudo, este movimento não está isento de tensões. A abertura interdisciplinar pode conduzir à diluição de fronteiras importantes e levantar questões quanto aos critérios de rigor e identidade científica. Além disso, exige competências que nem sempre são contempladas nos modelos tradicionais de formação académica.
Portanto, as críticas contemporâneas não devem ser interpretadas como uma rejeição das ciências sociais, mas como um esforço de reformulação profunda do campo. Ao questionarem os seus fundamentos epistemológicos, ao reconhecerem a pluralidade de saberes e ao promoverem a interdisciplinaridade, estas abordagens apontam para uma ciência social mais aberta, reflexiva e socialmente relevante.
Todavia, esta reconfiguração exige um equilíbrio delicado: entre pluralidade e rigor, entre inovação e continuidade, entre crítica e responsabilidade. O desafio não consiste em abandonar o legado das ciências sociais, mas em reinterpretá-lo à luz das exigências do presente, construindo um campo capaz de compreender, e intervir, num mundo marcado por crescente complexidade e incerteza.
6. Debates e encruzilhadas do presente
As ciências sociais encontram-se, no início do século XXI, perante um conjunto de tensões que desafiam não apenas os seus objetos de estudo, mas também a sua legitimidade pública, os seus métodos e o seu papel social. Estas encruzilhadas não são externas ao campo; pelo contrário, emergem das próprias transformações que as ciências sociais procuram compreender. Entre elas, destacam-se o dilema entre neutralidade e engajamento, a valorização do conhecimento produzido no Sul Global, os impactos da tecnologia e da inteligência artificial, bem como a crise contemporânea da verdade.
Neutralidade vs. engajamento político
Uma das questões mais persistentes nas ciências sociais diz respeito à possibilidade, e à desejabilidade, de uma ciência neutra. A tradição associada a Max Weber (1904/2004) defende a neutralidade axiológica, entendida como a separação entre juízos de facto e juízos de valor. Contudo, esta posição tem sido progressivamente questionada, sobretudo num contexto marcado por desigualdades sociais profundas, crises ambientais e intensificação de conflitos políticos.
Autores como Boaventura de Sousa Santos (2014) sustentam que toda a produção de conhecimento é situada e atravessada por relações de poder, tornando ilusória qualquer pretensão de neutralidade absoluta. Neste sentido, a ciência social deve assumir um compromisso crítico, orientado para a transformação social e para a promoção da justiça cognitiva.
A questão, portanto, não se reduz a uma escolha binária entre neutralidade e engajamento, mas à capacidade de articular rigor científico com responsabilidade social. Uma ciência desligada das realidades que estuda arrisca-se a tornar-se irrelevante; por outro lado, uma ciência excessivamente militante pode comprometer a sua credibilidade analítica. O desafio contemporâneo reside, assim, na construção de um equilíbrio reflexivo entre estas dimensões.
Produção de conhecimento no Sul Global (com foco em Cabo Verde)
A crescente valorização do Sul Global tem vindo a desafiar a hegemonia epistemológica tradicional das ciências sociais. Países como Cabo Verde constituem contextos particularmente relevantes para repensar categorias como desenvolvimento, modernidade e identidade.
No caso cabo-verdiano, a história marcada pela colonização, pela diáspora e pela construção de um Estado-nação em condições específicas coloca desafios analíticos que não podem ser plenamente compreendidos através de modelos teóricos importados de contextos europeus. A produção de conhecimento local assume, assim, um papel estratégico, não apenas na interpretação da realidade nacional, mas também na diversificação das ciências sociais à escala global.
Persistem, contudo, obstáculos estruturais significativos, como a dependência de centros académicos estrangeiros, a limitação de recursos institucionais e a circulação desigual do conhecimento. Superar estas assimetrias implica promover uma ciência social mais inclusiva, situada e dialogante, capaz de integrar diferentes experiências históricas e culturais sem as subordinar a paradigmas dominantes.
Impactos da tecnologia e da inteligência artificial
A revolução digital e o avanço da inteligência artificial introduziram novas dimensões nos objetos, métodos e desafios das ciências sociais. A análise de grandes volumes de dados, a automação de processos e a crescente mediação tecnológica das interações sociais transformaram profundamente a forma como as sociedades se organizam, comunicam e produzem conhecimento.
Por um lado, estas tecnologias oferecem oportunidades inéditas para a investigação, permitindo análises mais abrangentes, preditivas e em tempo real. Por outro, levantam questões éticas e epistemológicas cruciais: em que medida os algoritmos reproduzem e amplificam desigualdades existentes? Como garantir transparência, accountability e justiça na produção de conhecimento mediado por sistemas automatizados? Qual é o lugar da agência humana num contexto de crescente automação?
Neste cenário, as ciências sociais são chamadas a desempenhar um papel fundamental não apenas como utilizadoras de tecnologia, mas como instâncias críticas capazes de problematizar os seus efeitos sociais, políticos e culturais.
Desinformação, crise da verdade e papel das ciências sociais
Outro desafio central do presente é a crescente crise da verdade, associada à disseminação de desinformação, à polarização política e à erosão da confiança nas instituições. Num ambiente mediático saturado e fragmentado, a distinção entre conhecimento científico e opinião torna-se progressivamente mais difusa.
Este contexto atribui às ciências sociais uma responsabilidade acrescida. Para além da produção de conhecimento rigoroso, torna-se necessário comunicar esse conhecimento de forma acessível, relevante e socialmente inteligível, contribuindo para o fortalecimento do debate público e da literacia mediática.
Todavia, esta tarefa enfrenta obstáculos significativos. A autoridade científica é frequentemente contestada, e a circulação de informação nas plataformas digitais obedece a lógicas que privilegiam visibilidade e viralidade em detrimento da veracidade. Neste sentido, as ciências sociais devem repensar as suas estratégias de intervenção pública, adaptando-se a novos formatos comunicacionais sem abdicar do rigor analítico.
Relevância pública das ciências sociais hoje
Face a estes desafios, impõe-se uma questão fundamental: qual é o lugar das ciências sociais na sociedade contemporânea? A resposta passa, inevitavelmente, pela sua capacidade de se manterem socialmente relevantes, isto é, de produzir conhecimento que não apenas explique o mundo, mas que também contribua para a sua transformação.
A relevância pública das ciências sociais depende de múltiplos fatores, incluindo a qualidade da investigação, a capacidade de diálogo com diferentes públicos, a articulação com políticas públicas e a intervenção em debates sociais. Mais do que nunca, torna-se necessário afirmar uma ciência social crítica, reflexiva e socialmente comprometida.
Deste modo, as encruzilhadas atuais das ciências sociais não devem ser interpretadas como sinais de crise terminal, mas como oportunidades de renovação e reconfiguração. A tensão entre neutralidade e engajamento, a valorização do Sul Global, os desafios tecnológicos e a crise da verdade constituem, simultaneamente, problemas estruturais e motores de transformação.
Neste cenário, o futuro das ciências sociais dependerá da sua capacidade de reconfigurar os seus fundamentos sem perder o seu núcleo crítico, afirmando-se como um campo indispensável para compreender, e intervir, num mundo caracterizado por crescente complexidade, incerteza e interdependência.
7. Posição crítica (núcleo opinativo do artigo)
Chegado a este ponto, torna-se incontornável assumir uma posição clara perante as tensões que atravessam as ciências sociais. A questão não é meramente teórica; é profundamente política e epistemológica: devem as ciências sociais aspirar à neutralidade ou assumir um compromisso ativo com a transformação social? Devem limitar-se à produção de conhecimento ou intervir nos processos que estruturam a realidade que analisam?
A tradição clássica oferece respostas divergentes. Por um lado, a defesa da neutralidade axiológica, associada a Max Weber (1904/2004), sublinha a necessidade de separar análise científica de juízos de valor, garantindo rigor metodológico e credibilidade. Por outro, a perspetiva crítica de Karl Marx (1867/2013) sustenta que todo o conhecimento é historicamente situado e deve contribuir para a emancipação social. Entre estas posições, o debate permanece aberto, mas não indecidível.
Sustentar, no contexto contemporâneo, a possibilidade de uma neutralidade absoluta revela-se epistemologicamente frágil e socialmente insuficiente. As ciências sociais não operam num vazio; são produzidas em contextos atravessados por desigualdades, conflitos e relações de poder. Ignorar essa condição equivale, frequentemente, a reproduzir de forma implícita as estruturas existentes. Como argumenta Boaventura de Sousa Santos (2014), a pretensa neutralidade pode funcionar como um mecanismo de invisibilização de injustiças, sobretudo quando privilegia epistemologias dominantes em detrimento de outras.
Todavia, rejeitar a neutralidade não implica abdicar do rigor. Pelo contrário, exige reconhecer que o conhecimento científico deve ser simultaneamente crítico e metodologicamente exigente. O compromisso não pode ser confundido com militância acrítica; pressupõe fundamentação teórica sólida, transparência metodológica e abertura ao contraditório.
Neste quadro, a dicotomia entre produzir conhecimento e promover transformação social revela-se, em grande medida, artificial. Conhecer é, inevitavelmente, intervir. As categorias analíticas mobilizadas, os problemas selecionados e as interpretações produzidas exercem efeitos concretos na forma como a realidade é compreendida e organizada. As ciências sociais não se limitam a descrever o mundo; participam na sua construção simbólica e, por extensão, na definição das possibilidades da sua transformação.
Deste ponto de vista, defende-se aqui uma conceção de ciência social assente em três pilares fundamentais:
- Ciência social crítica: As ciências sociais devem manter uma atitude permanente de problematização das estruturas de poder, das desigualdades e das narrativas dominantes. Isso implica recusar a naturalização da realidade social e interrogá-la nas suas condições históricas de produção. A crítica não constitui um elemento acessório, mas o núcleo estruturante da atividade científica neste campo.
- Ciência social situada: Todo o conhecimento é produzido a partir de um contexto específico, histórico, cultural e geográfico. Reconhecer essa condição não fragiliza a ciência; pelo contrário, torna-a mais reflexiva e epistemologicamente honesta. Contextos como Cabo Verde evidenciam a necessidade de produzir conhecimento ancorado em experiências locais, capaz de dialogar com o global sem se subordinar a ele.
- Ciência social socialmente responsável: Num mundo marcado por crises múltiplas, sociais, ambientais e tecnológicas, as ciências sociais não podem limitar-se à observação distante. Devem assumir um papel ativo na construção de soluções, contribuindo para o debate público, para a formulação de políticas e para o fortalecimento da cidadania. A responsabilidade social da ciência não é uma dimensão periférica, mas uma exigência estrutural do seu tempo.
Sendo assim, em última instância, a escolha não se coloca entre neutralidade e compromisso, nem entre conhecimento e transformação. A exigência contemporânea consiste em construir uma ciência social capaz de articular rigor analítico com relevância social, crítica com responsabilidade, reflexão com ação.
As ciências sociais não devem abdicar da sua vocação científica, mas também não podem renunciar ao seu potencial transformador. É precisamente na tensão produtiva entre estas dimensões, e não na sua separação, que reside a sua força, a sua legitimidade e a sua atualidade.
8. Conclusão
A análise desenvolvida ao longo deste artigo permite reafirmar a tese central: as ciências sociais não podem ser reduzidas a uma função meramente descritiva, devendo afirmar-se como um campo simultaneamente analítico e transformador. Desde a sua emergência na modernidade até às reconfigurações contemporâneas, este domínio do saber tem sido atravessado por uma tensão constitutiva entre explicação e intervenção, neutralidade e compromisso, ciência e política.
A revisitação dos clássicos, Karl Marx, Émile Durkheim e Max Weber, evidenciou que esta tensão não constitui um problema recente, mas um traço fundacional das ciências sociais. Enquanto Marx enfatiza a crítica e a transformação das estruturas de poder, Durkheim sublinha a necessidade de ordem e coesão social, e Weber procura equilibrar interpretação e rigor metodológico. Longe de representar uma fragilidade, esta pluralidade paradigmática constitui uma riqueza epistemológica que continua a dinamizar o debate científico.
Por sua vez, as críticas contemporâneas, particularmente as propostas de Immanuel Wallerstein, Anthony Giddens e Boaventura de Sousa Santos, evidenciam os limites das estruturas disciplinares tradicionais e apontam para a necessidade de uma ciência social mais aberta, reflexiva e plural. Questões como o eurocentrismo, a fragmentação do conhecimento, a globalização, a crise da verdade e a emergência de novas epistemologias demonstram que o campo se encontra em permanente transformação.
Neste cenário, as perspetivas futuras das ciências sociais dependem, em larga medida, da sua capacidade de reinvenção. Essa reinvenção passa por eixos fundamentais: a superação de fronteiras disciplinares rígidas através de abordagens interdisciplinares; a valorização da diversidade epistemológica, com especial atenção aos contributos do Sul Global; o reforço da relevância pública do conhecimento produzido; e o enfrentamento crítico dos desafios tecnológicos e informacionais, incluindo os impactos da inteligência artificial e da desinformação.
Mais do que nunca, torna-se imperativo repensar não apenas o que as ciências sociais estudam, mas também como e para quem produzem conhecimento. A sua legitimidade futura dependerá da capacidade de responder a problemas concretos, de dialogar com diferentes públicos e de contribuir para a construção de sociedades mais justas, inclusivas e democráticas.
Assim, o imperativo que se impõe é claro: as ciências sociais devem afirmar-se como um campo em permanente reconstrução, aberto à crítica, à inovação e à responsabilidade social. Não se trata de abandonar o legado dos seus fundadores, mas de o reinterpretar à luz das exigências do presente. É precisamente nesse movimento, simultaneamente reflexivo e transformador, que reside a sua continuidade, a sua relevância e a sua indispensabilidade no mundo contemporâneo.
Referências Bibliográficas
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